manoel de oliveira- 10 anos depois da sua morte

Mor­ria há cer­ca de 10 anos, um dos rea­li­za­do­res mais impor­tan­te do cine­ma por­tu­guês, um rea­li­za­dor que quer pelas limi­ta­ções ide­o­ló­gi­cas da épo­ca, quer por pou­cos recur­sos finan­cei­ros e logís­ti­cos, nun­ca pres­cin­diu de fazer o seu cinema.

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Mano­el de Oli­vei­ra na roda­gem de Le Sou­li­er de Satin (1985) — foto tira­da da revis­ta Cahi­ers du Cine­ma edi­ção nº 379

Mano­el de Oli­vei­ra come­ça a sua car­rei­ra com a cur­ta metra­gem, Dou­ro, Fai­na Flu­vi­al em 1931 e é com essa cur­ta metra­gem que con­se­gue a aten­ção da indús­tria cine­ma­to­grá­fi­ca na epo­ca “Com um míni­mo de con­di­ções favo­rá­veis Mano­el de Oli­vei­ra rea­li­zou o que outros não rea­li­zam com o máxi­mo” — José Régio 

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Ficha do fil­me “Dou­ro, Fai­na Flu­vi­al” fil­me que este­ve na edi­ção de 1998 do fes­ti­val Cami­nhos do Cine­ma Português

Anos mais tar­de, mas ain­da com o mes­mo pano de fun­do de “Dou­ro, Fai­na Flu­vi­al”, Mano­el de Oli­vei­ra lan­ça a sua pri­mei­ra lon­ga metra­gem, “Ani­ki Bóbó”, é um fil­me que ten­do sido pro­ta­go­ni­za­do por cri­an­ças, mas tem o seu olhar bas­tan­te adul­to, um fil­me que nos con­ta a his­tó­ria de dois rapa­zes, Car­li­tos e Edu­ar­do que têm uma pai­xão por Tere­si­nha. Este aca­ba por ser um dos fil­mes mais conhe­ci­dos do rea­li­za­dor, tan­to pela manei­ra de como todo o fil­me é rea­li­za­do, como pela manei­ra sim­ples mas poé­ti­ca de o ver.

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Ficha do fil­me “Ani­ki Bobo” fil­me que este­ve na edi­ção de 1998 do fes­ti­val Cami­nhos do Cine­ma Português

Amor de Perdição 

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Folha de Sala de Ciclo de Cine­ma Por­tu­guês, rea­li­za­do pelo CEC em 22 de Janei­ro em 1981 no Tea­tro Gil Vicente

O fil­me que con­ti­nua a tetra­lo­gia dos Amo­res Frus­tra­dos, a adap­ta­ção do livro de Cami­lo Cas­te­lo Bran­co para o cine­ma por Mano­el de Oli­vei­ra, duran­te mui­to tem­po foi dis­cu­ti­da, como uma obra sem alma, e que dei­xa­va o espec­ta­dor can­sa­do e des­gas­ta­do pela sua dura­ção, e pelos seus pla­nos fixos que são len­tos, na épo­ca des­cri­to como uma pro­vo­ca­ção, Amor de Per­di­ção é exí­mio na for­ma de trans­por­tar o espec­ta­dor para aqui­lo que acon­te­ce no fil­me e tam­bém para o dei­xar emer­gir naque­le mun­do que lhe é pre­sen­te espe­ci­fi­ca­men­te tra­tan­do de uma obra de épo­ca, para além dis­so o fil­me tra­ta o tem­po de uma manei­ra mui­to espe­ci­fi­co, é pre­ci­so con­tar uma his­tó­ria e essa his­tó­ria será con­ta­da ao rit­mo do autor, e isso Oli­vei­ra não falha. A par­tir daqui a crí­ti­ca inter­na­ci­o­nal come­ça de cer­ta for­ma a olhar para o cine­ma de Oli­vei­ra com um olhar aten­to, Ser­ge Daney escre­veu na altu­ra “ Oli­vei­ra insis­tiu que o fil­me fos­se vis­to em con­ti­nui­da­de. Pela pri­mei­ra vez, não é uma ques­tão de capri­cho do autor nem de ter­ro­ris­mo: amor à per­di­ção é um dos raros fil­mes cuja dura­ção é a pró­pria maté­ria”. (cita­ção dos Cahi­ers du Cine­ma edi­ção núme­ro 301)

Le Sou­li­er de Satin

A Mai­or obra de Mano­el de Oli­vei­ra em ter­mos de dura­ção (com cer­ca de 6 horas e 50 minu­tos) é tam­bém uma adap­ta­ção da obra de Paul Cladel.

Qua­se sete horas de dura­ção, pla­nos geral­men­te lon­guís­si­mos, no limi­te mate­ri­al da dura­ção do “maga­sin”, câma­ra nor­mal­men­te imó­vel, impon­do um úni­co pon­to de vis­ta sobre per­so­na­gens que, tam­bém nor­mal­men­te, estão está­ti­cas e se falam sem se olhar e sem olhar para a câma­ra, fixan­do um algu­res inde­fi­ni­do e insi­tu­a­do” escre­veu João Bénard da Cos­ta nas Folhas da Cinemateca.

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Foto reti­ra­da da revis­ta Cahi­ers Du Cine­ma de Janei­ro de 1986 nº 379

Non ou a Vã Gló­ria de Matar

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Capa da Revis­ta Cine­ma- Fede­ra­ção Por­tu­gue­sa de Cine­clu­bes nº18 do Inver­no de 1990/1991

Oli­vei­ra nun­ca teve medo de expri­mir no seu cine­ma que gos­ta­va do seu país, quer por no iní­cio da sua fil­mo­gra­fia, retra­tar o Por­to como a cida­de que o viu nas­cer, Oli­vei­ra quer nes­te fil­me a con­tar os fei­tos de Por­tu­gal. Non con­ti­nua a nível de esca­la a ser um dos mai­o­res épi­cos do cine­ma português.

Vale Abrãao

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Arti­go da Revis­ta Cine­ma- Fede­ra­ção Por­tu­gue­sa de Cine­clu­bes nº23 Março/Maio de 1994

Um dos fil­mes mais que­ri­dos dos ciné­fi­los ou mes­mo dos fãs de Oli­vei­ra, o fil­me que vai con­tar a his­tó­ria de Ema uma mulher ino­cen­te mas com uma bele­za tão gran­de, que faz com que os con­du­to­res tenham aci­den­tes, Ema é con­tu­do infe­liz quer por­que casou com um homem que não gos­ta, quer por que não se sen­te ver­da­dei­ra­men­te rea­li­za­da. Ema é inter­pre­ta­da pela mag­ní­fi­ca Leo­nor Silveira. 

a bele­za é aqui­lo que mais aba­te o nos­so fin­gi­men­to” (cita­ção do filme)


Via­gem ao Prin­cí­pio do Mundo

Nes­te fil­me Oli­vei­ra jun­ta Mar­cel­lo Mas­troi­an­ni, com a sua usu­al esco­lha de elen­co por­tu­guês e faz um fil­me sobre o regres­so as ori­gens, sobre luto e sobre mor­te, pode de cer­ta manei­ra até se cons­ta­tar que aqui Oli­vei­ra come­ça a tocar em temas mais de cer­ta for­ma mais “adul­tos” tal­vez pois a ida­de do rea­li­za­dor tam­bém aumen­ta por­tan­to há tam­bém uma mudan­ça da temá­ti­ca usa­da anteriormente.

A Car­ta

Fil­me que con­ce­deu a Mano­el de Oli­vei­ra o pré­mio de “Gran­de Pré­mio do Juri” em Can­nes em 1993 que foi até a epo­ca um dos mai­o­res pré­mi­os do cine­ma por­tu­guês, que têm como elen­co prin­ci­pal Chi­a­ra Mas­troi­an­ni e Pedro Abrunhosa. 

Pala­vra e Utopia

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Ficha do fil­me no fes­ti­val Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês em 2001

O fil­me que vai nos con­tar a his­tó­ria do padre Antó­nio Viei­ra, uma das carac­te­rís­ti­cas mais inte­res­san­tes do fil­me é como Oli­vei­ra par­te a his­tó­ria em três perío­dos dife­ren­tes da figu­ra do padre, “repartindo‑o” por três ato­res mui­to que­ri­dos pelo rea­li­za­dor, Ricar­do Trê­pa na juven­tu­de, Luís Miguel Cin­tra na ida­de adul­ta e Lima Duar­te no fim da vida.

O Gebo e a Sombra

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Ficha do fil­me no fes­ti­val Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês em 2012

Aos 102 anos de ida­de, Mano­el de Oli­vei­ra rea­li­za a sua últi­ma lon­ga metra­gem, em um fil­me que explo­ra a clas­se soci­al e a mora­li­da­de, a manei­ra como todo o fil­me é ilu­mi­na­do, o jogo de som­bras, e como é tudo mui­to sereno.

Oli­vei­ra é, e sem­pre será figu­ra incon­tor­ná­vel do cine­ma por­tu­guês e que dei­xa um lega­do ini­gua­lá­vel ao cine­ma, a sua fil­mo­gra­fia con­ti­nua a ser alvo de visi­o­na­men­to e de dis­cus­são, e espe­ra­mos que assim o con­ti­nue a ser. 

Arti­go fei­to por: Gui­lher­me Paiva